A inteligência artificial está a aproximar-se de algo que parecia ficção científica, a capacidade de catalogar, interpretar e até imitar os sons que os animais usam para comunicar entre si.
Os avanços nos modelos de machine learning estão a abrir portas para uma compreensão muito mais profunda do mundo animal, mas trazem consigo um conjunto de questões éticas que os investigadores ainda não sabem como resolver.
Investigadores alertam que recolha de vocalizações animais para treinar IA pode violar a privacidade dos animais
Um artigo publicado na Springer Nature levanta um risco que ainda não está a ser considerado nas diretrizes de ética em investigação, a possibilidade de estar a violar a privacidade dos animais ao recolher dados sobre as suas vocalizações e movimentos.
O argumento é que muitos animais com vidas sociais complexas têm interesse em controlar como aparecem perante os outros e que esse interesse constitui uma forma de privacidade.
O biólogo Vittorio Baglione, que passou a carreira a catalogar os sons dos corvos, ficou impressionado com a capacidade da inteligência artificial para organizar as suas gravações e identificar padrões específicos, incluindo um chamamento que descreve como “Hey, vem ajudar!” que os corvos usam para convocar outros a defender o ninho.
Mas o próprio investigador alerta que esta tecnologia pode ser usada de forma maliciosa, por exemplo por caçadores que imitem esses chamamentos para atrair os animais.

A prática conhecida como playback, que consiste em reproduzir gravações de chamamentos animais na natureza, já é polémica. Aproveita a confiança do animal num determinado som para o fazer agir de forma previsível, o que pode causar stress, perturbar o ambiente social e até criar conflitos entre animais quando o significado do chamamento não é bem compreendido.
Em 2007, uma zoóloga admitiu ter causado grande angústia a um elefante ao reproduzir a gravação da voz do seu avô já falecido.
Apesar das preocupações, existe um prémio de 10 milhões de dólares para quem conseguir estabelecer comunicação com um animal sem que este perceba que está a comunicar com humanos.
O fundador do desafio, Jeremy Coller, disse em junho ter convicção absoluta de que este objetivo será alcançado antes de 2030.



