Navegar na internet na China tem uma série de restrições controladas por uma ferramenta conhecida como “Grande firewall da China”.
Se durante muitos anos foi exclusiva deste país, uma startup vai começar a vender esta plataforma para países e entidades externas.
Startup quer levar “Grande Firewall da China” a outros países
Uma fuga massiva de dados expôs uma inquietante iniciativa ligada à censura digital global.
Mais de 500 GB de documentos internos revelam que a startup Geedge Networks está a vender a governos estrangeiros sistemas de controlo de internet inspirados diretamente na “Grande Firewall da China”.
De acordo com a investigação conduzida pela InterSecLab, pelo menos três países já implementaram estas tecnologias, replicando medidas restritivas semelhantes às adotadas por Pequim.
Entre os investidores da Geedge Networks está Fang Binxing, considerado um dos “pais” do firewall chinês. A empresa comercializa uma plataforma de vigilância avançada que inclui hardware para centros de dados e software de monitorização em tempo real.
O coração deste sistema é o “Tiangou Secure Gateway” (TSG), instalado em pontos estratégicos da infraestrutura de internet nacional, capaz de inspecionar e filtrar todo o tráfego de dados.

Quando o tráfego não é encriptado, o TSG consegue recolher informações sensíveis como emails e passwords. Já em comunicações cifradas, recorre a técnicas de inspeção profunda de pacotes e algoritmos de IA para bloquear VPNs e ferramentas de anonimato.
Um consórcio internacional de meios de comunicação e organizações de direitos humanos, incluindo a Amnistia Internacional, confirmou a presença destes sistemas no Cazaquistão, Paquistão, Etiópia e Myanmar.
Documentos internos também revelam planos de expansão para países como Malásia, Bahrein, Argélia e Índia, com a empresa a recrutar tradutores de espanhol e francês para reforçar a sua estratégia global.
As fugas revelam ainda o alcance impressionante do sistema em países como Myanmar, onde em fevereiro de 2024 os equipamentos da Geedge já estavam distribuídos por 26 centros de dados e 13 ISPs, monitorizando mais de 81 milhões de conexões em simultâneo. Nessa altura, o TSG identificava 281 serviços VPN e bloqueava ativamente 54 dos mais populares, entre os quais o ExpressVPN e o Signal.
Os registos sugerem também uma ligação entre a ativação destes sistemas e apagões da internet em momentos politicamente sensíveis. Na Etiópia, por exemplo, o TSG passou de monitorização passiva para bloqueio ativo dias antes de uma suspensão generalizada da internet em fevereiro de 2023.

Além da exportação da tecnologia, os documentos mostram que a Geedge continua a colaborar com instituições chinesas em projetos experimentais, nomeadamente na região de Xinjiang. Testes em curso incluem a firewall distribuída, sistemas capazes de mapear relações entre utilizadores, agrupar cidadãos com base nas aplicações que utilizam e até triangular localizações via estações móveis.
Outra revelação alarmante é um protótipo de “pontuação digital” individual, semelhante a um sistema de crédito social aplicado ao acesso à internet.
Cada utilizador teria uma nota base, que poderia ser aumentada mediante a entrega de dados biométricos ou identificação oficial. Caso a pontuação ficasse abaixo do limite, por exemplo, devido ao uso de uma VPN proibida, o cidadão poderia ser impedido de aceder à internet.
Por fim, os investigadores alertam para a capacidade do sistema injetar malware diretamente no tráfego dos utilizadores, explorando conexões não seguras (HTTP). Embora esta função esteja em fase de testes na China, poderá ser disponibilizada a qualquer governo cliente no futuro, ampliando o risco de abuso.
O caso levanta sérias preocupações sobre a exportação da censura digital chinesa e o impacto potencial destas tecnologias no acesso à informação, na privacidade e na liberdade de expressão em várias partes do mundo



