Três em cada quatro empresas inquiridas que apostam na inteligência artificial deixam a cibersegurança fora das prioridades de investimento.
Esta é a principal conclusão da 1.ª edição do Barómetro HeraPrime 2026, que retrata um forte desequilíbrio entre o ritmo de adoção tecnológica e a proteção dos sistemas nas empresas a operar em Portugal.
Empresas parecem não saber como e para o que utilizar a Inteligência Artificial
O estudo revela que a digitalização de base está consolidada nas organizações. Atualmente, 77% das empresas utilizam um software de gestão (ERP), 68% recorrem a ferramentas de colaboração na cloud e 68% já adotaram ferramentas de inteligência artificial.
No entanto, a adoção de Inteligência Artificial é feita maioritariamente de forma pontual e informal, com apenas 14% das empresas a utilizá-la de forma regular e estruturada.
O principal entrave à adoção (referido por 44% das empresas) é não saber o que a Inteligência Artificial pode efetivamente fazer pelo negócio.

Apesar da rápida evolução tecnológica, a resiliência das empresas não acompanhou o mesmo ritmo. Através da criação do “Índice HeraPrime”, que mede o nível de maturidade, verificou-se que a componente digital tem, em média, 56 pontos (em 100 possíveis), enquanto a componente de resiliência (que junta a segurança e a continuidade) se fica pelos 39 pontos. De facto, 75% das organizações registam uma maturidade digital superior à resiliência.
Na frente da cibersegurança, as medidas mais básicas e adquiridas estão generalizadas: 88% das empresas realizam cópias de segurança regulares e 81% usam antivírus. Contudo, as medidas que exigem configuração de contas e preparação das pessoas são frequentemente descuradas.

Segundo o estudo em questão, apenas 35% das empresas utilizam autenticação multifator (MFA). O relatório destaca um dado alarmante: 56% das organizações que utilizam plataformas como o Microsoft 365 ou o Google Workspace não ativam a autenticação multifator, ignorando uma camada de proteção que já está incluída sem custos adicionais nestes serviços.
O impacto e a preparação para falhas operacionais são outro ponto crítico. Três em cada dez empresas não conseguem estimar quanto tempo demorariam a retomar a atividade após uma falha total dos sistemas.
Para agravar o cenário, 44% não possuem qualquer plano de continuidade de negócio e apenas 12% detêm um plano devidamente documentado e testado. Além disso, 68% das organizações que dizem ter um plano de continuidade concluído nunca o testaram.
A dimensão das organizações afeta diretamente as prioridades e os obstáculos ao investimento em tecnologia. Nas microempresas (até 10 colaboradores), os principais entraves identificados são a falta de tempo para gerir a mudança (58%) e a falta de pessoas qualificadas (38%), sendo que apenas 8% encaram a cibersegurança como uma prioridade de investimento.
Já nas médias e grandes empresas inquiridas (entre 11 e 250 colaboradores), o custo é a maior barreira apontada (52%) e 33% elegem a segurança como área prioritária de investimento. No cenário global, 60% das empresas prevêem investir em Inteligência Artificial e automatização nos próximos 12 meses, contrastando com apenas 23% que antecipam investimentos em cibersegurança.
Para Paulo Lobo, diretor comercial da HeraPrime, “as empresas fizeram a parte mais difícil, que foi digitalizar-se”. “O que falta é, muitas vezes, ligar proteções que já pagaram e testar o que acontece quando algo falha”, acrescentando que “não é preciso um grande programa: é preciso começar por um processo e saber quanto tempo demora a voltar”.

O estudo recomenda que as empresas ativem opções de segurança já incluídas nas ferramentas de cloud e aconselha a que a resiliência comece a ser incluída diretamente dentro do orçamento de novos projetos de Inteligência Artificial.
A 1.ª edição do Barómetro HeraPrime 2026 recolheu 57 respostas válidas de empresas a operar em Portugal através de um inquérito online, decorrido entre 16 de julho e 30 de setembro de 2026. A maioria da amostra (81%) é composta por organizações com até 50 colaboradores e 72% têm sede na Área Metropolitana de Lisboa.



