Após as conclusões da 1.ª edição do Barómetro HeraPrime 2026, o TechBit quis saber mais sobre como está a Inteligência Artificial no mundo empresarial e, para tal, estivemos à conversa com Paulo Lobo, Diretor comercial da HeraPrime.
Entre vários tópicos, Paulo Lobo explicou-nos um pouco do que está a acontecer nas empresas que, aparentemente, dão mais importância em promover que têm a tecnologia de Inteligência Artificial do que propriamente a saberem como a usar e como esta pode ajudar a própria empresa.
A adoção da Inteligência Artificial acaba por negligenciar a cibersegurança
Um ponto curioso do estudo apresentado pela HeraPrime é que, apesar de investirem na Inteligência Artificial, as empresas acabam por não se importarem tanto com a questão da cibersegurança. Existem sistemas pagos e outros gratuitos, alguns que já existem há vários anos, como a autenticação de dois fatores.
No entanto, mesmo sendo gratuito, é um sistema que nem todas as empresas adotam como medida mínima de segurança. Paulo Lobo comenta que “as pessoas hoje em dia não se preocupam com isso”.
Segundo o responsável, as pessoas, de uma forma geral, têm uma tendência para ignorar as questões de segurança quando surge algo novo, sendo esta uma questão puramente comportamental que transita rapidamente para as empresas.

“Pode ser uma questão de comodidade, é chato e um incómodo porque não é necessário, uma vez que ainda não houve um ataque”, explica, ilustrando a mentalidade do “isto não me acontece a mim, só acontece aos outros”. Esta perspetiva afeta sobretudo as microempresas, que se focam mais no dia a dia, na geração de faturação e na eficiência, acabando por deixar a cibersegurança para segundo plano.
O que é preciso ter em atenção é que a automação feita pela Inteligência Artificial, ao entrar nos sistemas, acaba por abrir as portas das organizações. Ou seja, quando começam a usar a Inteligência Artificial para automatizar algumas funções, estão a permitir que a mesma tenha acesso aos dados internos da empresa, sem grande preocupações sobre onde e como estes dados são geridos e armazenados.

Paulo Lobo sublinha que, quando os utilizadores pedem a sistemas de Inteligência Artificial, como o Copilot, o Gemini, o ChatGPT, ou qualquer modelo de Inteligência Artificial que recorra a este mesmo método de funcionamento, para aceder a emails, efetuar resumos de reuniões ou lançar faturas, “muito poucos se preocupam que aquele programa vai aceder aos dados da empresa”.
O desconhecimento é um fator crítico, especialmente quando as empresas sabem que a Inteligência Artificial existe e querem apostar nela, mas ignoram as permissões exigidas, permitindo frequentemente acessos perigosos sem a devida autenticação mais segura e atualizada, algo que se poderia resolver facilmente e por uma quantia residual de investimento e que “pode no futuro vir a poupar milhares ou milhões”.
Tem de existir um limite para o que a IA pode, ou não, fazer
Para a HeraPrime, a resposta passa pelo conceito de “By Design”, onde as limitações técnicas e éticas são implementadas na base do desenho do próprio agente de IA, exigindo um maior grau de maturidade. A IA é generativa, sendo capaz de aprender e gerar respostas que podem seguir caminhos bons ou maus.
É crucial “limitar o que a empresa quer proteger e não deixar a decisão livre para os agentes de IA”, impedindo, por exemplo, que a Inteligência Artificial decida livremente como gerar código.
Numa explicação simples, Paulo Lobo dá-nos o exemplo de qualquer filme de robôs ou mesmo do Matrix. Existem aquelas 3 regras base impostas e os modelos de Inteligência Artificial precisam de ter esse tipo de regras implementadas de origem e com as devidas restrições à possibilidade de as sobrepor ou modificar.
Por exemplo, a IA não deve ter a liberdade de criar código e emitir uma resposta que vá contra os princípios e a imagem que a empresa quer passar, no entanto, estes são conceitos que constantemente podem ser alterado e, como tal, deve existir uma forma de regular isto.
Se a programação inicial for feita de forma a que as regras a seguir sejam implementadas, o agente de Inteligência Artificial não vai passar por cima dessas mesmas restrições. No entanto, para os casos em que as coisas mudam e é preciso ajustar, existe sempre a hipótese de um utilizador ter permissões que permitem autorizar que a IA passe por cima das regras ou mesmo que as possa alterar para ajustar à nova realidade da empresa.
“Eu não quero que a Inteligência Artificial comece a gerar o código que lhe apetece. Devem ser impostos limites que a empresa assim decida e não deixxar estas decisões livres de aprovação por um utilizador responsável ou pela empresa de desenvolvimento”, explica-nos Paulo Lobo.
Como exemplo, o responsável explicou-nos que, na HeraPrime, “os nossos agentes já estão programados para não pedirem credenciais dos utilizadores, garantindo assim que esta informação não fique disponível nos servidores do serviço de Inteligência Artificial”. Quando se cria uma Agente de IA “tens de dizer até onde ele pode ir e qual a linguagem que pode utilizar”, de forma a garantir que os princípios da empresa se mantém assegurados.

Ao limitar os sistemas a uma linguagem mais natural, próxima do utilizador e longe do mero programador, a tecnologia ganha o poder de aproximar as marcas dos clientes e de abrir novas portas de negócio. O objetivo imediato da Hera Prime foca-se precisamente na comunicação e imposição destas balizas.
Uma nova “revolução industrial”
Sobre os impactos estruturais da tecnologia na sociedade, a visão partilhada por Paulo Lobo revela um olhar otimista sobre a reinvenção do trabalho.
Pegando no exemplo da Revolução Industrial e de como as pessoas se assustaram na altura sobre a perda de trabalho e funções que se iriam extinguir, o responsável não se mostrou muito preocupado com essa possibilidade.
Embora reconheça que alguns postos de trabalho possam vir a extinguir-se por causa da Inteligência Artificial, Paulo Lobo aponta para a criação de outras funções complementares. Trata-se de uma fase inevitável, comparável à Revolução Industrial, época em que a semana de trabalho reduziu de sete para cinco dias.

“Na altura trabalhava-se 7 dias por semana, depois passou a ter-se o Domingo em casa, depois o sábado e depois deixamos de estar 12 horas a trabalhar todos os dias”, explica o diretor.
O objetivo atual da HeraPrime é que, com o novo relatório, consigam aproximar-se mais dos clientes que já têm e que lhes consiga abrir mais portas, ao alertarem de pontos cruciais que as empresas estão a deixar de parte. “Neste momento o objetivo da HeraPrime é impor estas regras e falar delas urgentemente”, explica o responsável.
O futuro, sustenta, aponta para uma “melhor gestão das coisas”, prevendo um cenário em que as exaustivas jornadas de 12 horas dão lugar a períodos de maior descanso, equacionando-se semanas de quatro dias com seis a oito horas diárias de trabalho. Sendo o progresso incontornável, o foco tem de estar, agora, em saber “como fazer” esta transição com a máxima segurança.
“Atualmente a Inteligência Artificial está demasiado desgovernada e parte do nosso objetivo é ajudar a que entendam os riscos e ajudar as empresas a adaptarem-se”, conclui Paulo Lobo, Diretor comercial da HeraPrime.



